#sertioé

Ser tio de alguém que nasceu 13 anos depois do ano 2000 pode ser algo estranho para quem nasceu 13 anos antes. No final  da década de 80 não existia DVD. O computador  era algo surreal, caro, arcaico, onde se jogava apenas Prince of Persia, acessávamos  pelo DOS. TV podia ter cores, mas em casa restou  uma preta  e branca  que girávamos  o comando para troca de canais. Esta era usada exclusivamente para jogarmos o Atari que jogamos no lixo, sem saber que nos anos 2000 seria  uma relíquia de colecionador. Hoje, sem grandes dificuldades,  a mesma casa que reunia 5 pessoas em volta de uma única tv de 14 polegadas,  26 anos depois separa essas mesmas pessoas na frente de 2 tablets, 3 celulares, 1 desktop, 2 notebooks.

Minha sobrinha que não tem 2 anos mal fala uma palavra inteira, mas já conseguimos estabelecer uma conversa com seu semi vocabulário. Gumgum é o termo que o mini humano aqui de casa designou para nomear o tablet. Confesso sou viciado no meu,  vejo email, assisto “tv”, ouço música,  converso com amigos,  faço compras, leio livros, escolho roupas,  etc. Ela apenas assiste  videos. Começou com a galinha azul,  depois da formiga de olhos grandes (que particularmente eu amo muito a musicalidade da produção), as músicas e vídeos que devem ter sido feitos no paint das canções portuguesas,  depois veio um cara estranho que tem um monte de amigos bichos e fala de voar no avião de papel,  ver o sol,  e se divertir… Ele tem um jeito que parece o meu de levar a vida,  o que não me agrada se considerá-lo para a minha sobrinha. Enfim, canções infantis,  e agora que confiamos que ela não vai arremessar os tablets longe, damos autonomia para ela pular de música caso ela não goste.

No meu tempo era apenas uma opção, sbt, globo ou cultura, dependia apenas do lado que a antena estivesse virada. Eventualmente quando cai o abastecimento elétrico, como no exato instante em que vos escrevo, sinto que somos tomados por um sentimento de conexão  entre as pessoas, todos cooperam, um segura o celular para dar uma luz a quem desbrava armários e gavetas em busca de velas. Pensar num jantar sem microondas, sem luz é quase uma caça a um javali. Conversam entre si para passar o tempo,  lembram de casos quando faltava energia há muitos anos,  jogam baralho, dominó, fazem sombras com a luz do fogo para entreter crianças impacientes na penumbra, como se quase transportasse cada família ao cenário mais primitivo a nossa realidade. Mas esse sentimento de calor e humanidade se apaga com o estalo da geladeira que volta a funcionar,  e as lâmpadas de cômodos aleatórios se acendem sem sentido, porém suficientemente forte para que a luz da vela nem seja notada, a conexão wi-fi volta a transportar as pessoas para o seu “mundo de verdade”. A fria e clara realidade.

por João Vilaça Guimarães

João Vilaça Guimarães colunista blog Ana Flavia Barreto

o João é arquiteto, faz a gente rir muito e eu amo ele parecendo o Marc Jacobs nessa foto